Irmãos

Fascistas? Nós somos todos, irmãos,
quando nem olhamos uns para os outros;
para nosso próprio espelho, tampouco,
e afloram gestos e palavras vãos.

Quando não reconhecemos as cores,
e as ruas cinzas perdem direção,
e já nada ouvimos na solidão,
e arfam carinhos, afetos, amores.

Fascistas? Nós somos todos irmãos.
Se não nos compreendemos, sobra o ódio,
se não dialogamos, resta o incêndio.
E nada fica de nós sobre o chão.

Nessa grande tribo, impera o silêncio
em meio a tanto grito, à escuridão.
Nenhum ideal em comum. Senão
o vazio, o desrespeito, o precipício.

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O que aprender sobre carreira com Bibi Ferreira

Independente de gostar ou não de teatro, todo mundo tem muito a aprender com a trajetória de 75 anos de carreira e 94 anos de vida da atriz, cantora e diretora Bibi Ferreira. Isso mesmo, você não leu errado: são mais de sete décadas na ativa! E ela segue a plenos pulmões, porque ama o que faz, não tem medo do tempo (pelo contrário, encara-o com bom humor), continua dedicada, rigorosa, perfeccionista e sempre demonstra gratidão e respeito por seu público. Esses elementos, acredito, levaram Bibi a construir sua inquestionável credibilidade, a se tornar referência entre seus pares e a não passar nem perto da tão famosa aposentadoria.

Pensando nisso, tomo a liberdade de questionar: você ama o que faz? A pergunta parece chavão, mas sua resposta é valiosa. O amor ao ofício consiste na base do sucesso de Bibi Ferreira – e de qualquer um de nós. Quando a vejo em cena cantando com entusiasmo e, após o espetáculo, apesar do cansaço, recebendo o público com carinho, imagino como aquelas pessoas cujo principal trabalho é reclamar do trabalho encarariam mais de 70 anos no batente… A verdade é que tendemos a viver mais e a nos aposentar cada vez mais tarde (e todos hão de convir, não vai dar pra contar apenas com a aposentadoria). Assim, trabalhar a contragosto é um martírio com níveis de tortura em aumento exponencial. É o que você quer?

Bibi ama o teatro, o palco. A palavra. Acredita na beleza do que já fez, faz e ainda planeja fazer (sim, tem até show em Nova York daqui a alguns meses!!!) e, por isso, segue em atividade, sem nenhum desejo de parar, atuando com satisfação e, principalmente, bom humor. Aliás, você é bem-humorado? Ou a chegada ao escritório é como uma tempestade interrompendo um feriado de sol pra você? Bibi entra em cena sempre animada, divertida, brincalhona. E a idade tem sido o principal alvo de suas piadas. No show de comemoração pelos 75 anos de carreira, por exemplo, surpreendeu o público ao abrir o espetáculo com Eu nasci há 10 mil anos atrás, sucesso de Raul Seixas. Típica ironia. Afinal, a seriedade dedicada ao trabalho nunca foi um empecilho à alegria de realizá-lo. Seriedade não significa cara feia, mas “apenas” responsabilidade.

E a responsabilidade de Bibi vem do imenso respeito que ela tem à profissão que escolheu e a quem procura por seu trabalho: o público. “Quanto maior a ovação, maior a responsabilidade”, costuma dizer. Ela considera uma honra ter uma plateia diante de si e, se pudesse, cantaria de joelhos para demonstrar o quanto respeita cada um de seus espectadores, conforme afirmou em entrevista recente na televisão. Dessa postura sensata vêm o perfeccionismo, o rigor, a dedicação. Apesar dos anos de estrada, Bibi nunca julga um trabalho como fácil. Gosta dos desafios. Ainda fica nervosa antes de se abrirem as cortinas e, no dia a dia, cuida da voz, ensaia, lê muito, estuda. E você? Ainda está disposto a aprender sobre o seu trabalho? A se aprimorar? Trata todos os seus contatos com a devida atenção ou prefere fingir que não leu aquele e-mail – à primeira vista – desinteressante?

Com uma estrada repleta de sucessos e condecorações, Bibi talvez pudesse se portar como uma diva inatingível; porém, é visivelmente humilde diante dos elogios e dos carinhos que recebe da plateia nos espetáculos, sempre agradece as declarações do público e, sem pensar duas vezes, divide o sucesso com a orquestra, ao pedir que os músicos se levantem para receber os aplausos. Você, por sua vez, tenta colher sozinho os louros dos projetos bem-sucedidos ou sabe compartilhar? Ou prefere compartilhar mesmo apenas a autoria das falhas? Já desenvolveu o hábito de agradecer?

Sempre que ouvir falar de Bibi Ferreira ou, simplesmente, quando fizer uma pausa de alguns minutos para refletir sobre trabalho, sugiro que você pense o seguinte: quando completar seus 94 anos – as chances disso acontecer são cada vez maiores –, gostaria de continuar fazendo o que está fazendo agora? Se a resposta for negativa…

Bem, se a resposta for negativa, é hora de começar a repensar sua carreira, seus objetivos, suas especializações. Melhor: hora de repensar sua vida para, assim como Bibi, poder chegar aos 94 anos e, sem receio, repetir os versos da música de Michel Vaucaire e Charles Dumont, eternizados na voz de Edith Piaf: “Non, je ne regrette rien.”

Elis Regina e a missão de fazer bem ao mundo

Eu costumo conseguir expressar com a palavra escrita coisas que, mineiro, não digo a qualquer um. Não tenho sempre 100% de aproveitamento, mas, em geral, funciona, seja com saudosismos, desilusões, nostalgias, seja com constatações, críticas e até pequenas esperanças. Por algum motivo, porém, nunca tenho a sensação de “dever cumprido” quando escrevo sobre Elis Regina. Na maioria das vezes, aliás, abandono os textos já nos primeiros parágrafos. Ela, que tanto me inspira, parece não caber nas páginas que ouso começar. Por isso pretendo não pensar muito sobre as próximas linhas. Quero apenas compartilhar impressões.

Compartilhar a impressão de que, para mim, quando Elis canta, a música se completa. Como se ela fosse a nota faltante, o instrumento imprescindível, o segredo da harmonia. Como se, ainda hoje, dissesse as verdades mais necessárias, alertasse para os maiores perigos, celebrasse as mais suadas conquistas. Como se traduzisse as mais íntimas entrelinhas dos versos e também imprimisse aos vocalizes a mais emocionada poesia.

Compartilhar simplesmente que suas ideias, pregadas tanto em discos e shows como em honestas entrevistas, continuam tão jovens quanto sua voz. Que sua inquietude, refletida na constante busca por novas sonoridades a cada álbum, e sua fé no novo, expressa em seu incansável garimpo de jovens compositores, permanecem como referência para a boa música popular brasileira.

Que sua preocupação social, presente tanto nas letras das canções como em seu engajamento nas causas de direitos autorais e até mesmo de direitos gerais dos trabalhadores no final dos anos 70, ainda configuram uma artista de invejável coragem e consciência do seu tempo. Que suas querelas ambientais, evidenciadas em shows como Transversal do Tempo (1978) e Saudades do Brasil (1980), caracterizam uma cantora atenta, atuante e visionária.

Elis tinha o cuidado, que muito admiro, de acompanhar seu tempo – mesmo ou porque à frente dele. E a lucidez de reconhecer o falso brilhante da fama, de não perder de vista os valores e anseios da sua geração. O sonho da liberdade, da democracia, da tolerância, da equidade. De um país com autoestima, orgulhoso de sua cultura, de sua luta.

Tinha a ousadia de se posicionar como mulher em um mundo de homens. De se equilibrar na corda bamba diante dos desmandos de um regime autoritário. E – creio que esta seja sua maior lição para o nosso tempo – de manter vivos, em meio a tantos compromissos e desafios, a busca pela leveza, o sorriso no rosto e, principalmente, o otimismo de acreditar na melhoria das pessoas e do planeta.

Amor por Sampa

Já faz um tempo, eu ainda morava em Minas, na pequena Cabo Verde, quando li no jornal um carinhoso artigo do psicanalista Contardo Calligaris sobre sua relação com São Paulo. A inspiração para escrever veio do filme O Signo da Cidade, do casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli, que lançava um olhar doce sobre a metrópole, tantas vezes abordada apenas pelo viés da violência, da pressa, da desigualdade. Anos depois, vivendo aqui, assisto ao novo longa da dupla, Amor em Sampa, e também me inspiro a refletir sobre a controversa cidade.

Embora tocasse em questões de violência, preconceito e solidão, O Signo da Cidade, de 2008, guiava-se por uma esperança sutil, um otimismo discreto, enquanto contava e conectava, com delicadeza, as histórias dos habitantes de uma – à primeira vista – insensível selva de pedra. Em seu artigo, Calligaris dizia justamente o quanto essa visão peculiar sobre a cidade – a visão apaixonada e terna de Bruna e Riccelli – o levou a sair do cinema vendo São Paulo de modo diferente, nostálgico, fruto do exercício de se abrir para a possibilidade de, em meio a inúmeros transtornos e problemas, olhar a metrópole por um ângulo mais generoso.

O mesmo aconteceu comigo ao assistir a Amor em Sampa; mais agitado, divertido e ágil do que O Signo, o longa é uma verdadeira exaltação à riqueza da diversidade de São Paulo, sua cultura e suas possibilidades de convívio e de sustentabilidade. Às vezes, a despeito de haver no enredo uma conturbada campanha publicitária, o filme chega até a soar como um luxuoso comercial sobre o ambiente paulistano, mas, goste-se ou não, ele vende sua ideia: tudo depende da maneira de olhar.

Se eu deixasse São Paulo hoje, também o faria com a nostalgia mencionada por Calligaris. A mudança foi impactante e difícil; a adaptação, demorada. Temia a probabilidade de ser assaltado a cada esquina. Assustavam-me os ruídos dos carros, a velocidade dos ônibus, a truculência das calçadas, as misérias, as misérias, as misérias… Com o passar do tempo, no entanto, vieram também as boas descobertas.

Elas surgiam à medida que eu aprendia a olhar São Paulo por entre as fendas dos horrores e aumentavam meu encantamento pela grande cidade. Como não valorizar a cultura efervescente – e muitas vezes gratuita –, as oportunidades de estar perto de grandes artistas e suas obras, as manifestações políticas, as iniciativas socioambientais, a possibilidade de acompanhar o futuro que acontece aqui desde a Semana de Arte Moderna de 1922?

E São Paulo ainda tem um espaço urbano em transformação, cada vez mais colorido por grafites e intervenções criativas, além de mais propício à convivência, com ruas fechadas para carros – ou abertas para as pessoas – aos domingos. Uma monótona caminhada tende a se tornar agora um exercício muito mais dinâmico e interativo… Sem contar as ciclofaixas, que são um verdadeiro convite para a população enfurnada em condomínios se reaproximar da cidade e fazer as pazes com ela.

Não faltam críticas (fundadas e infundadas) à capital paulista, bem sei, mas se hoje consigo vê-la com bons olhos é porque a conheço melhor. Só é possível ter amor por Sampa como têm Bruna, Riccelli e Calligaris se nos aproximarmos das ruas, dos parques, dos eventos, dos museus, dos monumentos, da beleza e entendermos os diversos potenciais da metrópole: acredite, eles vão muito além dos financeiros, já tão conhecidos e consagrados. São Paulo pode, sem dúvida, ser mais acolhedora, limpa, colorida, lúdica, apaixonante, sustentável. Depende de como a olhamos.

Ou melhor. Depende do quanto estamos dispostos a trabalhar para transformá-la. E o trabalho, este sim, de como vemos (ou sonhamos ver) a cidade.

Por que nós estamos destruindo tudo?

Há um momento no filme O Menino e o Mundo em que a bela animação de Alê Abreu dá lugar a imagens reais de queimadas, desmatamentos e poluição. Se quando assisti ao longa pela primeira vez me marcou acima de tudo o modo como o diretor conseguiu transmitir, apenas com o desenho, sem diálogos nem narrações, a liberdade e a pureza da infância, na segunda, foi um personagem que não estava na tela. Quando os coloridos traços artesanais deram lugar ao fogo, às motosserras e às chaminés de fábricas, uma criança na fileira de trás questionou, inconformada: “Por que eles estão destruindo tudo?”

Deixei o cinema com essa grande inquietação: afinal, por que nós estamos destruindo tudo? E por que não estamos sequer inconformados? Quando nos tornamos tão insensíveis, quando passamos a aceitar tudo como algo natural, como parte de um jogo? Onde aprendemos a tolerar a violência contra as florestas, os rios, a biodiversidade? Quem começou a tapar os olhos para os impactos hoje tão conhecidos dos abusos contra o meio ambiente?

Segundo a organização Global Footprint Network (GFN), cada vez mais cedo consumimos os recursos naturais necessários para a sobrevivência durante o período de um ano no planeta. Em 2000, o chamado Dia de Sobrecarga da Terra aconteceu em 5 de outubro; em 2015, em 13 de agosto. E enquanto aumenta nossa pegada ecológica, cresce também a desigualdade social, com menos de 100 das pessoas mais ricas do mundo detendo uma riqueza equivalente à da metade mais pobre da população, conforme aponta o estudo Uma economia para o 1%, da Oxfam International.

O Menino e o Mundo destaca os prejuízos ambientais e sociais causados pelas atividades do homem urbano, mas o espanto do pequeno coadjuvante da fileira de trás ampliou em mim a abrangência de tantas agressões. Quero dizer, não temos tratado com inconsequente civilidade e elegância apenas a devastação dos ecossistemas e as condições desumanas de vida e trabalho de nossos iguais, mas também a dissolução das nossas relações, o desprezo pelos valores, a falência educacional, a proliferação do ódio, a banalização da política, a desesperança, a infelicidade, o descaso.

Em algum ponto da nossa caminhada, penso, perdemos a capacidade de nos surpreender. Não sei onde. Aliás, conseguiríamos lembrar quando nos espantamos pela última vez com os absurdos disfarçados de cotidiano ou de noticiário? A indiferença dita o ritmo alucinado da vida e, embora quase imperceptível, revestida de inércia, não é inocente. Fruto do nosso egoísmo, ela finge nos proteger, evita que encaremos o desafio de procurar soluções para nossos inúmeros problemas, sem nos deixar concluir que, destruindo tudo, destruímos pouco a pouco também a nós mesmos.

O Soldado

Raparam seus cabelos e seus sonhos
Camuflaram o seu rosto e seus medos
Desprezaram seus planos, seus apelos
Demarcaram seus passos e seus olhos

Falaram em ordem, em progresso
Discursaram verdades ao avesso
Cobraram seus erros, seus tropeços
Fizeram-no imagem, e não gesto

Bobagens que sonhava em pequeno
Coragem emprestada dos guerreiros
Verdades nunca ditas por inteiro
Tudo morreu aos poucos no processo

Agora fardado, homem feito
Não lembra que é apenas objeto
De um tempo impiedoso no aspecto
De que a tal processo estão todos sujeitos

decapitalismo

homens mulheres destinos traçados
fumaça demais lembrança embaçada
horas pressa passos marcados
corpos caídos gente programada

precisa-se alguém perfeito aproximado
viagens línguas cultura invejada
discrição frieza diploma enquadrado
nome influência inteligência calculada

descarta-se melanina adulto desgastado
pobre faminto gente danificada
inexperiência técnica povo marginalizado
tatuagens qualquer coisa desorientada

silêncio trabalho cansaço acumulado
filho no quarto tarefa inacabada
jantar entregue jantar calado
solidão porém família sustentada

era do homem capitalizado
sentidos escassos vida financiada
seguindo ritmo sistema ditado
olhar adentro mentira decapitada