Irmãos

Fascistas? Nós somos todos, irmãos,
quando nem olhamos uns para os outros;
para nosso próprio espelho, tampouco,
e afloram gestos e palavras vãos.

Quando não reconhecemos as cores,
e as ruas cinzas perdem direção,
e já nada ouvimos na solidão,
e arfam carinhos, afetos, amores.

Fascistas? Nós somos todos irmãos.
Se não nos compreendemos, sobra o ódio,
se não dialogamos, resta o incêndio.
E nada fica de nós sobre o chão.

Nessa grande tribo, impera o silêncio
em meio a tanto grito, à escuridão.
Nenhum ideal em comum. Senão
o vazio, o desrespeito, o precipício.

O Soldado

Raparam seus cabelos e seus sonhos
Camuflaram o seu rosto e seus medos
Desprezaram seus planos, seus apelos
Demarcaram seus passos e seus olhos

Falaram em ordem, em progresso
Discursaram verdades ao avesso
Cobraram seus erros, seus tropeços
Fizeram-no imagem, e não gesto

Bobagens que sonhava em pequeno
Coragem emprestada dos guerreiros
Verdades nunca ditas por inteiro
Tudo morreu aos poucos no processo

Agora fardado, homem feito
Não lembra que é apenas objeto
De um tempo impiedoso no aspecto
De que a tal processo estão todos sujeitos

decapitalismo

homens mulheres destinos traçados
fumaça demais lembrança embaçada
horas pressa passos marcados
corpos caídos gente programada

precisa-se alguém perfeito aproximado
viagens línguas cultura invejada
discrição frieza diploma enquadrado
nome influência inteligência calculada

descarta-se melanina adulto desgastado
pobre faminto gente danificada
inexperiência técnica povo marginalizado
tatuagens qualquer coisa desorientada

silêncio trabalho cansaço acumulado
filho no quarto tarefa inacabada
jantar entregue jantar calado
solidão porém família sustentada

era do homem capitalizado
sentidos escassos vida financiada
seguindo ritmo sistema ditado
olhar adentro mentira decapitada

Novo Ano

Bombas iluminam os céus
Homens escondem outras mais
Outras cada vez mais poderosas anunciam tempos
Tempos modernos
Gloriosos. Exércitos poderosos. Políticos religiosos.
Reacionários
Tempos temporários
Temporais
Rios dentro de casas. Casas simples
Mares varrem condomínios
Extermínios
Plantas. Bichos. Desprotegidos
Homens preparados. Equipados. Prepotentes
Tudo condenado ao repente
Mas de repente passou.
Bombas iluminam os céus

Enfeites. Cores. Frases. Nomes. Festas
Abraços
Força. Sorte. Coragem
Contagem
A esperança renasce
Logo envelhece
Tornam as outras bombas. Os outros tempos.
Os verdadeiros homens
Logo, envelhece
Endurecem os corações. Ensurdecem.
Entorpecem a razão. Racionalizam os sonhos.
Entretanto
Há um sopro que persiste
Um perfume que insiste
Uma voz que não admite desistir
Uma vez que não se permite outra escolha
A vida há de resistir

P(ale)olítica

Confesso-me politicamente perdido
Em tempos e espaços de muito ódio gritado
Lamento por quem põe camisas de partidos
E hasteia bandeiras de ideal fracassado

Tantos reacionários saindo do armário
Quanto esquerdistas correndo atrás de salário
Sobra propina nos cálculos do honorário
Falta progresso no verdadeiro cenário

Penso em quem nem sonha com o quanto é logrado
Em meio a interesses escusos, partidários
Daqueles que jogam, têm tudo em abundância

Daqueles que têm foro privilegiado
Conduzem o mundo com viés arbitrário
E condenam tantos à paz vã da ignorância

Carta pro Governador

Está tudo seco aqui
Ilustre governador
Tudo cinza, tudo pálido
Fumaça e muito calor
Nas matas, troncos caídos
Nas ruas, sede, suor
Nas urnas, votos apáticos
No sofá, voz sem valor
Para cima, olhos estáticos
Aguardam pelo Senhor

Que está tudo seco aqui
O senhor deve saber
Mas, antes, bem aqui dentro
Se me permite dizer
Essa panca, esse desprezo
Esse ar pesado, ar blasé
Não é só descaso seu
(Embora pudesse ser
Afinal, quem tem as armas
Força, dinheiro e poder?
Que muito valem, admito
Só que não fazem chover)

Já não existem inocentes
Neste trágico momento
Fomos todos negligentes
No agir e no sentimento
Na secura das represas
Mina um rio violento
Nos mananciais tem ódio
O cheiro do nosso tempo
Intolerante, egoísta
Insensato, de cimento

E nesta correspondência
Digo com sinceridade
Que, por fim, Vossa Excelência
(Não lhe miro na vaidade!)
De toda essa complacência
Tem a culpa que lhe cabe
Mas não falo em prevalência
Pois há seca em toda a parte

Olhar das Coisas

Olhar o olhar das coisas. Respeitá-las
antes mesmo de ouvi-las, de entendê-las.
Partilhar do olhar das coisas, das pétalas,
das cores, dos cheiros, dos gostos, das estrelas.

Sem extremos, sem espadas, sem espantá-las:
encantar-se com o olhar das coisas, deixar serem elas.
Que sejam ímpares, ínterins, livres das celas,
que vivam as ruas, matas, águas, que icem as velas.

Observar as coisas, o quanto são belas
na sua natureza, na sua criação. Tentar aprendê-las.
Reter um pouco das coisas, das texturas das telas,
dos traços, das maneiras, do oculto. Conhecê-las.

Parar diante do olhar das coisas, do silêncio delas,
de sua história, de suas dores. E escutá-las.
Ainda que nada possam dizer sobre suas mazelas,
decifrar sua fala universal e ajudá-las.

Saber a essência das coisas, que são pó e alma, e tê-las
em alta conta, de imediato, simplesmente pelas sequelas
compartilhadas de existir e da beleza de, ao olhá-las,
ver-se no mesmo mistério, incertezas e vielas.