Alguma coisa acontece…

São Paulo parecia (talvez não seja este o tempo verbal mais adequado) toda feita contra mim. Antissilêncio, altiva, apressada… Eu e minha pouca sombra não sabíamos para onde olhar, onde estávamos, como ir nem como voltar. Os ônibus não tinham espaço. As calçadas, as ruas, as pessoas – a mesma coisa. Naquele dia 12 de agosto de 2009, o carro dobrou a esquina e só deixou comigo o choro de minha mãe.

Vá lá. Deixou também a música de Caetano. Sampa, No dia em que eu vim-me embora, Onde eu nasci passa um rio… Tudo fazia mais sentido do que na noite anterior à viagem, sob a movimentação pacata (eta vida besta, meu Deus!) das Gerais: meu pai, pouco habilidoso com sentimentos, deitando-se como se nada estivesse acontecendo; minha avó a recomendar que voltasse logo; meu irmão, “boa sorte”; e, no quarto ao lado, o choro de minha mãe.

No quarto ao lado, agora, já não ouvia nada. O apartamento vazio destoava da paisagem estranha e paulistana da janela. Buzinas na cozinha, na sala, no banheiro. Uma vontade de vomitar desponta – mal imaginava que me acompanharia durante os próximos quatro dias. Difícil ler, pensar, passar o tempo. Ao anoitecer, diminui o ruído “natural”, mas me atrapalha o sono o choro de minha mãe.

Cumprimento inutilmente os apressados cidadãos. As pessoas se enturmam fácil, mas não comigo – que também nem me esforço. Não observo as marcas dos carros, mas as de sujeira na pele dos moribundos em que tropeço a cada esquina – anos depois, ainda não me acostumei. Almoço pouco, passo mal e o cheiro amarelado da metrópole me persegue. Em um cruzamento, mesmo concentrado e na faixa de pedestres – recomendação unânime de todos que me conheciam em Minas –, sou surpreendido por uma moto. Por sorte, só alguns arranhões na perna esquerda. Não conto a ninguém, mas baqueio.

“Talvez eu volte mesmo para Cabo Verde”, penso. A universidade é cara, o custo de vida é alto, a situação, difícil. Pode ser que nem goste tanto de jornalismo assim… Daqui, então, nem se fala. “Se for para voltar, que seja pelos seus motivos, não pelos nossos. Eu e seu pai nos viramos por aqui”, responde minha mãe, sem a voz de choro dos dias anteriores.

Hora de parar de chorar. Eu fico.

Poucos dias depois, já compreendo melhor Macabéa, Fabiano, José Arcadio Buendía, a terceira margem do rio, os tons de Milton, a flor e a náusea. Retirantes, solitários, deslocados, saudosos, pessimistas, iludidos. Sou só mais um em São Paulo, que nunca se clareia, mas ensina. E eu vou, por que não?

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