Versos para se pensar no novo ano

Não temos proteção para o que foi vivido,
 insônias, esperas de trem, de notícias,
 pessoas que se atrasaram sem aviso,
 desgosto pela comida esfriando na mesa posta.” 

Procurando versos que ajudassem a pensar um ano realmente novo, esses, da poeta Adélia Prado, me pareceram os mais adequados ao topo de uma sucinta “lista”. O trecho, extraído do poema Avós, sugere uma aceitação do passado muito cara – ou necessária – à construção do futuro. O acontecido pode magoar, marcar, ferir, mas não pode mudar nem desaparecer. Nada resta a ser feito quanto a ele; muito, porém, temos a fazer quanto ao agora.

Assimilada a inevitabilidade do passado, que possamos, ao olhar para ele, em vez de lamentar o que poderia ter sido e não foi, constatar nossa resistência e nossos aprendizados, como no poema Os Últimos Dias, de Carlos Drummond de Andrade. Na estrofe a seguir, o eu-lírico pede, diante do irremediável e infalível fim, tempo para reconhecer o crescimento em meio às atribulações:

“O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte, e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.”

Sim, somos todos irmãos, e o futuro exigirá de nós cada vez mais diálogo, compaixão. Porém, se não estivermos preparados para ouvir e compreender – e, assim, respeitar profundamente – as diferenças, avizinhadas pelas redes sociais digitais e o mundo globalizado, que ao menos a ideia de irmandade defendida pelo poeta mineiro consiga nos assegurar uma convivência digna, amistosa. No mínimo, pacífica. Os próximos versos, retirados do livro Poema Sujo, de Ferreira Gullar, podem nos ajudar no desafio de exercitar o respeito não só às pessoas, mas também à natureza, pois mostram o deslumbramento de uma criança com a descoberta da grandeza do mundo – e da pequenez humana.

“e ver que a vida era muita
espalhada pelos campos
que aqueles bois e marrecos
existiam ali sem mim
e aquelas árvores todas
águas capins nuvens – como
era pequena a cidade!

E como era grande o mundo:
há horas que o trem corria
sem nunca chegar ao fim
de tanto céu tanta terra
de tantos campos e serras
sem contar o Piauí”

Um ano realmente novo implica, a partir de um olhar menos umbilical, colocar-se no lugar do outro e evitar a sobreposição de interesses individuais aos coletivos. Envolve, antes de mais nada, combater as nossas “pequenas corrupções” e a banalização das desigualdades, da falta de educação, da desatenção. E essa crença tem de aparentemente utópica o que tem de necessária para iniciarmos uma caminhada de superação de situações há muito consolidadas, como o cenário descrito por Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência, de 1953:

Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.”

Os versos descrevem não apenas um passado cruel – ou a dura realidade do presente –, mas, acima de tudo, uma triste perspectiva: embora sempre se fale em ano novo e em transformações, a verdade é que mudamos pouco ao longo do tempo e, na toada atual, continuaremos sem progressos significativos. As desigualdades continuam a nos perturbar infimamente e seguimos pecando mais por inércia do que por iniciativa. Em uma revisão de valores, que consigamos refletir sobre os falhos princípios que têm nos regido, como consumismo, imediatismo e individualismo, deixar de lado os vícios dos pequenos poderes e assumir uma postura de vida mais humilde e franca, como ensina Jorge Luis Borges em seu poema Lhaneza; afinal: 

“Isso é alcançar o mais alto,
o que talvez nos dará o Céu:
nem admirações nem vitórias
mas sermos, simplesmente, admitidos
como parte de uma Realidade inegável,
como as pedras e as árvores.”
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