Nenhum olhar, várias perspectivas

“Era o som de movimentos impensados, impulsivos, de raiva. Para quem não conhecesse, poderia parecer o som de riscar. Mas não, era o som de escrever.” A escrita do português José Luís Peixoto opõe-se completamente ao silêncio e à escuridão de seu Nenhum Olhar (Ed. Agir), romance vencedor do Prêmio Saramago de 2001: é gritante, brilhante. Autor inspirado, ele mistura os homens agrestes do seu Alentejo a gigantes, demônios e vozes aprisionadas em arcas e cria uma literatura refinada.

Notadamente influenciado por seu célebre conterrâneo, José Saramago, Peixoto vale-se apenas de pontos e vírgulas em seu texto; desse modo, acentua a intensidade da narrativa. A não demarcação das falas e a quase ausência de diálogos ajudam a construir os personagens rudes, habitantes de um universo pobre e mítico, que descortinam sentimentos enquanto cruzam colinas à noite, em conturbados monólogos interiores.

Nesses momentos de solidão, as densas reflexões de vários personagens apresentam a história sob diversas e privilegiadas perspectivas. As carcaças miseráveis do romance, então, passam a ter sensibilidade e cogitações, ou seja, tornam-se gradativamente humanas. E cada vez mais humano também parece ser o espaço misterioso onde ocorre a história: sua escuridão, seu silêncio, sua serração, seu calor, enfim, todos os fenômenos são como ações que influenciam diretamente as atitudes de seus habitantes (ou respondem a elas).

Algumas passagens do livro, vale registrar, têm real valor e encanto literários. O momento em que o humilhado José discorre, solitário, sobre o que sente pelo filho, por exemplo, comove pela profundidade dos sentimentos, pois surpreende descobrir tamanha pureza por trás da pele tão triste e ressecada. Outra passagem de rara beleza é quando o mesmo José, ao voltar para casa, encontra o temido gigante abusando de sua esposa e, sem poder fazer nada, apenas olha nos olhos dela e percebe o quanto a amava, que a amou por toda a vida e, acima de tudo, que tamanho amor era recíproco.

“Quis ensinar-te que, se não vires as estrelas da noite, espera chuva no dia seguinte. E saberes isto é saberes tudo.” Ao explorar em Nenhum Olhar a simplicidade e/ou a rudeza dos homens e da terra, José Luís Peixoto torna, em contrapartida, rica e sofisticada sua literatura. Seu texto criativo e intenso coloca o leitor em contato com algo de extrema importância tanto para a arte quanto para a vida, mas que pouco tem sido valorizado no mundo atual: o lugar-qualquer, o joão-ninguém, o nenhum-olhar, “o caminho onde tudo é muito pouco, e cada uma dessas coisas pequenas é demasiada”.

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