O que se foi e o que será

Baby Jane, Blanche Hudson e a infelicidade vivem juntas – e sozinhas – em uma mansão em Los Angeles. A primeira teve seus dias de sucesso na infância, quando era a principal estrela mirim dos Estados Unidos; pouco a pouco, porém, perdeu lugar para a segunda, sua irmã, que viria a se tornar uma das maiores atrizes de Hollywood, até passar por um incidente que a deixou aleijada e interrompeu sua carreira. A terceira, por sua vez, acompanhou-as por toda a vida, fruto de algo que ruiu a relação fraterna ao longo dos anos: a mágoa. Dirigida por Charles Möeller e Claudio Botelho, a peça O que terá acontecido a Baby Jane?, de Henry Farrel, revela as faces mais cruéis e todo o potencial destrutivo do ressentimento, mas também um detalhe surpreendente: sua insignificância diante do amor.

Em cartaz no Teatro Porto Seguro e com Eva Wilma e Nicette Bruno nos papéis que, respectivamente, Bette Davis e Joan Crawford tornaram clássicos no filme de 1962, dirigido por Robert Aldrich, a peça apresenta mais detalhes da infância e juventude das irmãs Hudson, desde sempre marcadas pelo rancor – descarado – de Jane e – velado – de Blanche. A inversão de papéis no show business levou das irmãs mais do que a possibilidade de uma relação amistosa, saudável: à Jane, esquecida pelo público, custou sua infância, seus amigos, sua autoestima, sua segurança; já à Blanche, reconhecida e bela, custou a paz de espírito, os amores verdadeiros e até sua mobilidade.

Na cadeira de rodas, ela depende dos “cuidados” da irmã, alcoólatra e desequilibrada, que a submete às maiores atrocidades, desde mantê-la presa em um quarto para não fazer contato com ninguém a lhe servir um rato na bandeja do jantar. Por outro lado, embora se esforce constantemente para responder às agressões de Jane sempre com bondade e carinho, Blanche nunca consegue convencê-la de suas intenções generosas. Uma relação carcomida pela falta de diálogo, honestidade e transparência. Duas vidas apagadas pela sombra da mágoa, da inveja, da insegurança; desperdiçadas por sentimentos tão corriqueiros quanto poderosos, tão agressivos ao próximo quanto a quem – por menos que queira – os semeia.

Para o público, uma sensação de injustiça acompanha toda a peça, pois Jane parece agredir alguém que só lhe quer bem. No ápice das torturas físicas e psicológicas, no entanto, Blanche, em vez de condenar os crimes da irmã, decide revelar a ela um grande segredo, o fato responsável por fazer ambas infelizes, mas, principalmente, por transformar Jane na pessoa triste, feia e ferida que se tornou. E é este o ponto mais interessante da peça. Após a revelação, Jane não surta (ainda mais) nem pensa em se vingar. Pelo contrário. Simplesmente reflete: “Quer dizer que, esse tempo todo, nós poderíamos ter sido amigas?”

Ao ouvir o questionamento, Blanche imagina que Jane não entendeu a gravidade do problema e reforça a história. Ela, contudo, compreendera perfeitamente, fato por fato, e a única ideia que lhe ocorre agora é sair para tomar um sorvete com a irmã. Aproveitar o pouco tempo que lhes resta e que lhes foi roubado pela mágoa, seja originada da inveja, dos desencontros, seja das desconfianças, das infidelidades.

Sim. O ressentimento cega. Trai. Torna-se um ponto de referência, mas, ao mesmo tempo, um labirinto. Uma ferida aberta. Quantas vezes não permitimos que pequenos desentendimentos se tornem motivos de rancores eternos? E até os grandes problemas: quantas vezes não tornamos suas proporções ainda maiores e atribulamos nossas mentes e nosso dia a dia com questões que não careciam de nos levar tantas noites de sono? Por que tendemos a nos apegar tanto às mágoas? Quanto elas nos protegem de novos sofrimentos e quanto simplesmente nos sabotam? O que realmente nos ensinam e o que nos levam a deixar de aprender? Como devemos lidar com o preço das experiências negativas? Esquecendo tudo? Lembrando sempre? Quanto é ingênuo perdoar e quanto é necessário?

Questões como essas afloram diante da banalidade com que Baby Jane, no instante da grande revelação da peça, trata os ressentimentos de longos e tristes anos de convivência com a irmã. Colocam-se em xeque as pequenezas e mesquinharias humanas. A reação nada exagerada da infeliz personagem não remete especificamente a necessidade de se escolher entre perdoar e esquecer, mas, simplesmente, de evitar que a mágoa e o sofrimento assumam dimensões que, na maioria das vezes, não merecem ter. O que aconteceu às irmãs Hudson tem sua aura de Hollywood, mas pode se repetir – e se repete – na mediocridade da nossa vida cotidiana. Cabe a cada um de nós escolher entre o que se foi e o que será. Mas é possível? A tempo?

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