Paulinho da Viola, do estilo comedido à nobreza do samba

Nenhum grito, nenhum ruído sobrando, nenhum excesso. Em seu show apresentado em junho no Theatro NET SP – e que volta a cartaz em outubro –, o único exagero de Paulinho da Viola foi a elegância de seu samba. Com um repertório de sucessos e canções menos conhecidas, o músico prova mais uma vez a força do estilo comedido que o caracteriza, avesso a modismos, mas nada conservador; consagrado, mas sempre novo. Enquanto muitos colegas de geração buscam sintonizar seus sons com tendências estéticas contemporâneas – como Caetano Veloso e Gal Costa, muito bem-sucedidos em suas incursões roqueiras e eletrônicas –, o sambista segue em ritmo próprio.

Ritmo que pulsa delicado, saudoso, sensível, na contramão das rádios e de um cotidiano desesperado. Quando as cortinas se abriram e o sambista apareceu só no palco, acompanhado apenas de seu violão, conduziu o público fiel a uma viagem de bom gosto e poesia, a uma pausa no modo automático para dar vez a calmos momentos de contemplação da música. De admiração do samba. Nas curvas da voz aveludada de Paulinho da Viola, as paisagens sinuosas de canções como Dama de Espadas e Nervos de Aço tornam-se ainda mais belas e poéticas.

Outras composições, como as sentidas Num Samba Curto e Dança da Solidão, ganham doçura e leveza na interpretação do poeta, mas também, ao mesmo tempo, profundidade, enquanto sambas batucados como Quando Bate uma Saudade e Onde a Dor não tem Razão têm o lirismo de suas letras aquecido, entre agitados compassos, pela divisão suave de Paulinho, seu fraseado paciente e seu cantar melodioso. Ao apostar nas sutilezas das músicas e das poesias, o artista desvenda mistérios, redescobre significados e aponta caminhos imprevisíveis para versos e harmonias das mais alegres às mais tristes canções.

Atento observador dos corações humanos, Paulinho da Viola imprime ao canto o mesmo olhar detalhista e apaixonado com que compõe. E por sua leitura particular dos sons e a musicalidade de suas palavras, mantém uma obra constantemente revigorada, expressiva e – acima de tudo – extravagante. Claro, no melhor sentido: extravagante em sentimento, em sofisticação, em nobreza.

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