Espetáculo de gratidão

Gente jovem, bonita, de riso largo. Gente talentosa, afinada, de verdade. Gente cantora, instrumentista, intérprete. Artistas. Sensíveis para entender. Precisos para comunicar. E ousados, no desafio de recriar e celebrar um dos mais ricos imaginários da música brasileira. Milton Nascimento, Nada Será Como Antes – O Musical é, acima de tudo, um espetáculo de gratidão.

Gratidão à novidade, à juventude, à fé, à esperança, à coragem, à força, à alegria, à inspiração, à natureza – elementos-chave do universo criativo do compositor. Gratidão ao amor e à amizade, pilares da obra e da vida do Bituca. E, principalmente, gratidão à música, expressão que alimenta, envolve, emociona. Cura. Quando Charles Möeller e Claudio Botelho optaram por contar a história dos 50 anos de carreira e 70 de idade de Milton Nascimento estritamente por meio de suas canções, escolheram o caminho mais difícil, sem fórmulas e cronologias; porém, o mais fiel.

No palco, o elenco enfrenta as difíceis composições com maestria vocal, instrumental e cênica. Todos tocam e cantam. Estrela Blanco dá o tom da qualidade do espetáculo na bela Canção Amiga, poema de Drummond musicado por Milton; Cássia Raquel prima pela força e segurança em Caicó; e Lui Coimbra revisita com delicadeza San Vicente. Já Pedro Sol esquenta a apresentação com a roqueira Para Lennon e McCartney, enquanto Marya Bravo emociona em arranjo minimalista de Maria, Maria. Jules Vandystadt surpreende com Unencounter, versão em inglês para a clássica Canção da América, e Sérgio Dalcin destaca-se pelo carisma e pela terna interpretação de Coração de Estudante.

À altura do elenco estão cenário, iluminação e figurinos. Os números se passam em uma aconchegante sala de estar mineira, trespontana, com portas abertas a quem chegar e com paredes repletas de referências sacras para completar o clima interiorano. A música que acontece em casa e, imediatamente, contagia a todos remete à liberdade criativa das composições dos integrantes do Clube da Esquina, divididas no espetáculo em quatro partes – Primavera, Verão, Outono e Inverno – e reforçadas por fina iluminação, responsável por momentos memoráveis, como Milagre dos Peixes.

O conjunto da obra expõe no palco toda a intensidade autoral do homenageado. Para ele, aliás, que assistiu ao musical inúmeras vezes, o espetáculo deve significar, no mínimo, um balanço geral muito positivo da carreira, uma feliz rememoração. Para o público, reforça o sentimento de que os sonhos – e as músicas – não envelhecem. Além da apoteótica certeza de que, depois de Milton Nascimento, definitivamente, nada será como antes.

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