Música, diversidade e respeito

Entendo a música popular brasileira como um dos melhores exemplos da beleza da diversidade. Talvez seja a expressão artística que mais tenha agregado – e harmonizado – múltiplas faces regionalistas, de ritmos, de comportamentos, de linguagens. Essa característica agregadora, a meu ver, tem grande responsabilidade sobre o indiscutível reconhecimento da nossa cultura musical como uma das mais ricas do mundo, tanto por artistas e intelectuais quanto por público. A geração de cantores e compositores dos festivais dos anos 60 conserva grande parte do mérito por tal imagem, mas há talentos de gerações mais jovens representando com seriedade a colorida aquarela do Brasil.

Cito um exemplo recente. De um lado, uma cantora rigorosa, de técnica impecável, precisa, “quase religiosa”, como ela mesma se define. Do outro, um pianista virtuoso, inventivo, imprevisível. O que, à primeira vista, parece uma receita de pouca química torna-se, na verdade, um espetáculo nobre. Após assistir ao duo de piano e voz entre Mônica Salmaso e André Mehmari, deixei o Theatro NET SP com a certeza de ter visto não mais um show de música, mas um show de músicos, uma amostra da dita “beleza da diversidade” e um exemplo de que o respeito não só é preciso, mas também possível.

Ao conciliar estilos tão diferentes entre si, Mônica e Mehmari revelaram uma capacidade rara nos dias de hoje: a de compreender o outro. O brilho de ambos depende do entendimento recíproco, do diálogo, da troca, do saber ceder, da confiança na capacidade e na intuição de cada um. Como dividir a frase musical? Quanto alongar as notas? Quando improvisar? Sem conhecimento e respeito mútuo, os músicos jamais conseguiriam apresentar um espetáculo afinado, com o melhor desempenho possível de canto e instrumento. Mas eles conseguem. E ainda harmonizam suas particulares linguagens com um repertório também bastante diverso.

Do mais clássico dos baianos, Dorival Caymmi, ao expoente da vanguarda paulista, Luiz Tatit; do venezuelano Simón Díaz à chilena Violeta Parra; da Senhorinha de Guinga e Paulo César Pinheiro à Sinhá de Chico Buarque e João Bosco: Mônica e Mehmari entendem-se tão bem entre si quanto compreendem o cancioneiro popular, sua poesia, sua espontaneidade, sua história, suas raízes e sua sofisticação. Essa noção profunda que concilia um repertório diverso manifesta imenso respeito pela nossa miscigenada cultura e prova como o mergulho nas diferenças é, na verdade, um respiro, uma inspiração.

A força do espetáculo de Mônica Salmaso e André Mehmari concentra-se no que os distingue, nas suas particularidades; a força que os une, na empatia, na alteridade, no cuidado. Cuidado um pelo outro, pela música, os compositores, o público. Quando conquistaram a plateia do aconchegante Theatro NET SP com seu duo, os artistas mostraram, na prática, como a música, a diversidade e o respeito andam juntos. E o quanto essa união tem a oferecer à arte – e a ensinar à vida.

Irmãos

Fascistas? Nós somos todos, irmãos,
quando nem olhamos uns para os outros;
para nosso próprio espelho, tampouco,
e afloram gestos e palavras vãos.

Quando não reconhecemos as cores,
e as ruas cinzas perdem direção,
e já nada ouvimos na solidão,
e arfam carinhos, afetos, amores.

Fascistas? Nós somos todos irmãos.
Se não nos compreendemos, sobra o ódio,
se não dialogamos, resta o incêndio.
E nada fica de nós sobre o chão.

Nessa grande tribo, impera o silêncio
em meio a tanto grito, à escuridão.
Nenhum ideal em comum. Senão
o vazio, o desrespeito, o precipício.