Elis Regina e a missão de fazer bem ao mundo

Eu costumo conseguir expressar com a palavra escrita coisas que, mineiro, não digo a qualquer um. Não tenho sempre 100% de aproveitamento, mas, em geral, funciona, seja com saudosismos, desilusões, nostalgias, seja com constatações, críticas e até pequenas esperanças. Por algum motivo, porém, nunca tenho a sensação de “dever cumprido” quando escrevo sobre Elis Regina. Na maioria das vezes, aliás, abandono os textos já nos primeiros parágrafos. Ela, que tanto me inspira, parece não caber nas páginas que ouso começar. Por isso pretendo não pensar muito sobre as próximas linhas. Quero apenas compartilhar impressões.

Compartilhar a impressão de que, para mim, quando Elis canta, a música se completa. Como se ela fosse a nota faltante, o instrumento imprescindível, o segredo da harmonia. Como se, ainda hoje, dissesse as verdades mais necessárias, alertasse para os maiores perigos, celebrasse as mais suadas conquistas. Como se traduzisse as mais íntimas entrelinhas dos versos e também imprimisse aos vocalizes a mais emocionada poesia.

Compartilhar simplesmente que suas ideias, pregadas tanto em discos e shows como em honestas entrevistas, continuam tão jovens quanto sua voz. Que sua inquietude, refletida na constante busca por novas sonoridades a cada álbum, e sua fé no novo, expressa em seu incansável garimpo de jovens compositores, permanecem como referência para a boa música popular brasileira.

Que sua preocupação social, presente tanto nas letras das canções como em seu engajamento nas causas de direitos autorais e até mesmo de direitos gerais dos trabalhadores no final dos anos 70, ainda configuram uma artista de invejável coragem e consciência do seu tempo. Que suas querelas ambientais, evidenciadas em shows como Transversal do Tempo (1978) e Saudades do Brasil (1980), caracterizam uma cantora atenta, atuante e visionária.

Elis tinha o cuidado, que muito admiro, de acompanhar seu tempo – mesmo ou porque à frente dele. E a lucidez de reconhecer o falso brilhante da fama, de não perder de vista os valores e anseios da sua geração. O sonho da liberdade, da democracia, da tolerância, da equidade. De um país com autoestima, orgulhoso de sua cultura, de sua luta.

Tinha a ousadia de se posicionar como mulher em um mundo de homens. De se equilibrar na corda bamba diante dos desmandos de um regime autoritário. E – creio que esta seja sua maior lição para o nosso tempo – de manter vivos, em meio a tantos compromissos e desafios, a busca pela leveza, o sorriso no rosto e, principalmente, o otimismo de acreditar na melhoria das pessoas e do planeta.

Amor por Sampa

Já faz um tempo, eu ainda morava em Minas, na pequena Cabo Verde, quando li no jornal um carinhoso artigo do psicanalista Contardo Calligaris sobre sua relação com São Paulo. A inspiração para escrever veio do filme O Signo da Cidade, do casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli, que lançava um olhar doce sobre a metrópole, tantas vezes abordada apenas pelo viés da violência, da pressa, da desigualdade. Anos depois, vivendo aqui, assisto ao novo longa da dupla, Amor em Sampa, e também me inspiro a refletir sobre a controversa cidade.

Embora tocasse em questões de violência, preconceito e solidão, O Signo da Cidade, de 2008, guiava-se por uma esperança sutil, um otimismo discreto, enquanto contava e conectava, com delicadeza, as histórias dos habitantes de uma – à primeira vista – insensível selva de pedra. Em seu artigo, Calligaris dizia justamente o quanto essa visão peculiar sobre a cidade – a visão apaixonada e terna de Bruna e Riccelli – o levou a sair do cinema vendo São Paulo de modo diferente, nostálgico, fruto do exercício de se abrir para a possibilidade de, em meio a inúmeros transtornos e problemas, olhar a metrópole por um ângulo mais generoso.

O mesmo aconteceu comigo ao assistir a Amor em Sampa; mais agitado, divertido e ágil do que O Signo, o longa é uma verdadeira exaltação à riqueza da diversidade de São Paulo, sua cultura e suas possibilidades de convívio e de sustentabilidade. Às vezes, a despeito de haver no enredo uma conturbada campanha publicitária, o filme chega até a soar como um luxuoso comercial sobre o ambiente paulistano, mas, goste-se ou não, ele vende sua ideia: tudo depende da maneira de olhar.

Se eu deixasse São Paulo hoje, também o faria com a nostalgia mencionada por Calligaris. A mudança foi impactante e difícil; a adaptação, demorada. Temia a probabilidade de ser assaltado a cada esquina. Assustavam-me os ruídos dos carros, a velocidade dos ônibus, a truculência das calçadas, as misérias, as misérias, as misérias… Com o passar do tempo, no entanto, vieram também as boas descobertas.

Elas surgiam à medida que eu aprendia a olhar São Paulo por entre as fendas dos horrores e aumentavam meu encantamento pela grande cidade. Como não valorizar a cultura efervescente – e muitas vezes gratuita –, as oportunidades de estar perto de grandes artistas e suas obras, as manifestações políticas, as iniciativas socioambientais, a possibilidade de acompanhar o futuro que acontece aqui desde a Semana de Arte Moderna de 1922?

E São Paulo ainda tem um espaço urbano em transformação, cada vez mais colorido por grafites e intervenções criativas, além de mais propício à convivência, com ruas fechadas para carros – ou abertas para as pessoas – aos domingos. Uma monótona caminhada tende a se tornar agora um exercício muito mais dinâmico e interativo… Sem contar as ciclofaixas, que são um verdadeiro convite para a população enfurnada em condomínios se reaproximar da cidade e fazer as pazes com ela.

Não faltam críticas (fundadas e infundadas) à capital paulista, bem sei, mas se hoje consigo vê-la com bons olhos é porque a conheço melhor. Só é possível ter amor por Sampa como têm Bruna, Riccelli e Calligaris se nos aproximarmos das ruas, dos parques, dos eventos, dos museus, dos monumentos, da beleza e entendermos os diversos potenciais da metrópole: acredite, eles vão muito além dos financeiros, já tão conhecidos e consagrados. São Paulo pode, sem dúvida, ser mais acolhedora, limpa, colorida, lúdica, apaixonante, sustentável. Depende de como a olhamos.

Ou melhor. Depende do quanto estamos dispostos a trabalhar para transformá-la. E o trabalho, este sim, de como vemos (ou sonhamos ver) a cidade.