Por que nós estamos destruindo tudo?

Há um momento no filme O Menino e o Mundo em que a bela animação de Alê Abreu dá lugar a imagens reais de queimadas, desmatamentos e poluição. Se quando assisti ao longa pela primeira vez me marcou acima de tudo o modo como o diretor conseguiu transmitir, apenas com o desenho, sem diálogos nem narrações, a liberdade e a pureza da infância, na segunda, foi um personagem que não estava na tela. Quando os coloridos traços artesanais deram lugar ao fogo, às motosserras e às chaminés de fábricas, uma criança na fileira de trás questionou, inconformada: “Por que eles estão destruindo tudo?”

Deixei o cinema com essa grande inquietação: afinal, por que nós estamos destruindo tudo? E por que não estamos sequer inconformados? Quando nos tornamos tão insensíveis, quando passamos a aceitar tudo como algo natural, como parte de um jogo? Onde aprendemos a tolerar a violência contra as florestas, os rios, a biodiversidade? Quem começou a tapar os olhos para os impactos hoje tão conhecidos dos abusos contra o meio ambiente?

Segundo a organização Global Footprint Network (GFN), cada vez mais cedo consumimos os recursos naturais necessários para a sobrevivência durante o período de um ano no planeta. Em 2000, o chamado Dia de Sobrecarga da Terra aconteceu em 5 de outubro; em 2015, em 13 de agosto. E enquanto aumenta nossa pegada ecológica, cresce também a desigualdade social, com menos de 100 das pessoas mais ricas do mundo detendo uma riqueza equivalente à da metade mais pobre da população, conforme aponta o estudo Uma economia para o 1%, da Oxfam International.

O Menino e o Mundo destaca os prejuízos ambientais e sociais causados pelas atividades do homem urbano, mas o espanto do pequeno coadjuvante da fileira de trás ampliou em mim a abrangência de tantas agressões. Quero dizer, não temos tratado com inconsequente civilidade e elegância apenas a devastação dos ecossistemas e as condições desumanas de vida e trabalho de nossos iguais, mas também a dissolução das nossas relações, o desprezo pelos valores, a falência educacional, a proliferação do ódio, a banalização da política, a desesperança, a infelicidade, o descaso.

Em algum ponto da nossa caminhada, penso, perdemos a capacidade de nos surpreender. Não sei onde. Aliás, conseguiríamos lembrar quando nos espantamos pela última vez com os absurdos disfarçados de cotidiano ou de noticiário? A indiferença dita o ritmo alucinado da vida e, embora quase imperceptível, revestida de inércia, não é inocente. Fruto do nosso egoísmo, ela finge nos proteger, evita que encaremos o desafio de procurar soluções para nossos inúmeros problemas, sem nos deixar concluir que, destruindo tudo, destruímos pouco a pouco também a nós mesmos.

O Soldado

Raparam seus cabelos e seus sonhos
Camuflaram o seu rosto e seus medos
Desprezaram seus planos, seus apelos
Demarcaram seus passos e seus olhos

Falaram em ordem, em progresso
Discursaram verdades ao avesso
Cobraram seus erros, seus tropeços
Fizeram-no imagem, e não gesto

Bobagens que sonhava em pequeno
Coragem emprestada dos guerreiros
Verdades nunca ditas por inteiro
Tudo morreu aos poucos no processo

Agora fardado, homem feito
Não lembra que é apenas objeto
De um tempo impiedoso no aspecto
De que a tal processo estão todos sujeitos

decapitalismo

homens mulheres destinos traçados
fumaça demais lembrança embaçada
horas pressa passos marcados
corpos caídos gente programada

precisa-se alguém perfeito aproximado
viagens línguas cultura invejada
discrição frieza diploma enquadrado
nome influência inteligência calculada

descarta-se melanina adulto desgastado
pobre faminto gente danificada
inexperiência técnica povo marginalizado
tatuagens qualquer coisa desorientada

silêncio trabalho cansaço acumulado
filho no quarto tarefa inacabada
jantar entregue jantar calado
solidão porém família sustentada

era do homem capitalizado
sentidos escassos vida financiada
seguindo ritmo sistema ditado
olhar adentro mentira decapitada