Um dia para Jorge Amado

Alguns livros fazem mesmo a diferença na “conversão” de uma pessoa que simplesmente lê (ou nem costuma ler) em um leitor. Seja o best-seller na entrada da livraria, seja a indicação do professor na escola ou de um conhecido, há obras que se revelam com tamanho mistério empático que tornam a leitura não apenas um hábito ou um lazer, mas uma espécie de necessidade, um alívio. Embora considere difícil identificar a história exata responsável pelo meu “despertar”, acho que ele aconteceu com Jubiabá, de Jorge Amado.

Devia ter uns 12 anos quando a mãe de um amigo, animada com algumas então recentes leituras minhas, sugeriu o livro. Não foi bem o enredo que me levou a aceitar a sua indicação, mas – como ainda hoje acontece – o fascínio nos olhos dela ao falar da história, notar o quanto a marcou, perceber o mistério da literatura enquanto ela citava elementos ainda vivos na memória.

E a história do negro Antônio Balduíno, o pivete que era o rei da Bahia de Todos os Santos, entrou, assim, para a minha história. À época, impressionaram-me as aventuras do menino com o sonho de ser jagunço e matar os brancos, as macumbas na casa do Pai de Santo Jubiabá, as luzes da cidade, as cenas de sexo no areal do cais do porto, as brigas, as fugas, as greves, as mortes, os mortos. Não precisei de muitas páginas para concordar com Antônio Balduíno sobre o fato de sua vida merecer mesmo um ABC, composição de origem popular que enaltece santos e heróis.

Hoje, relendo o livro, não só me impressionam novamente os elementos que tanto marcaram minha memória afetiva, como também a seriedade da obra, o realismo e a lucidez de Jorge Amado ao retratar um pouco do nordeste brasileiro da primeira metade do século XX, a vida dos negros à deriva no período pós-escravidão, as péssimas condições de trabalho em plantações e fábricas, o machismo, o racismo, a mistura de miséria com liberdade. Não seria exagero afirmar, portanto, que chama atenção, acima de tudo, a atualidade do texto.

Ontem, dia 7 de janeiro, comemorou-se o Dia do Leitor. O meu dia foi dedicado a Jorge Amado. Aprendi a leitura com Jubiabá. E recomendo a leitura a quem não quer se iludir com o país em que vivemos.

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