Carta pro Governador

Está tudo seco aqui
Ilustre governador
Tudo cinza, tudo pálido
Fumaça e muito calor
Nas matas, troncos caídos
Nas ruas, sede, suor
Nas urnas, votos apáticos
No sofá, voz sem valor
Para cima, olhos estáticos
Aguardam pelo Senhor

Que está tudo seco aqui
O senhor deve saber
Mas, antes, bem aqui dentro
Se me permite dizer
Essa panca, esse desprezo
Esse ar pesado, ar blasé
Não é só descaso seu
(Embora pudesse ser
Afinal, quem tem as armas
Força, dinheiro e poder?
Que muito valem, admito
Só que não fazem chover)

Já não existem inocentes
Neste trágico momento
Fomos todos negligentes
No agir e no sentimento
Na secura das represas
Mina um rio violento
Nos mananciais tem ódio
O cheiro do nosso tempo
Intolerante, egoísta
Insensato, de cimento

E nesta correspondência
Digo com sinceridade
Que, por fim, Vossa Excelência
(Não lhe miro na vaidade!)
De toda essa complacência
Tem a culpa que lhe cabe
Mas não falo em prevalência
Pois há seca em toda a parte

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