P(ale)olítica

Confesso-me politicamente perdido
Em tempos e espaços de muito ódio gritado
Lamento por quem põe camisas de partidos
E hasteia bandeiras de ideal fracassado

Tantos reacionários saindo do armário
Quanto esquerdistas correndo atrás de salário
Sobra propina nos cálculos do honorário
Falta progresso no verdadeiro cenário

Penso em quem nem sonha com o quanto é logrado
Em meio a interesses escusos, partidários
Daqueles que jogam, têm tudo em abundância

Daqueles que têm foro privilegiado
Conduzem o mundo com viés arbitrário
E condenam tantos à paz vã da ignorância

Carta pro Governador

Está tudo seco aqui
Ilustre governador
Tudo cinza, tudo pálido
Fumaça e muito calor
Nas matas, troncos caídos
Nas ruas, sede, suor
Nas urnas, votos apáticos
No sofá, voz sem valor
Para cima, olhos estáticos
Aguardam pelo Senhor

Que está tudo seco aqui
O senhor deve saber
Mas, antes, bem aqui dentro
Se me permite dizer
Essa panca, esse desprezo
Esse ar pesado, ar blasé
Não é só descaso seu
(Embora pudesse ser
Afinal, quem tem as armas
Força, dinheiro e poder?
Que muito valem, admito
Só que não fazem chover)

Já não existem inocentes
Neste trágico momento
Fomos todos negligentes
No agir e no sentimento
Na secura das represas
Mina um rio violento
Nos mananciais tem ódio
O cheiro do nosso tempo
Intolerante, egoísta
Insensato, de cimento

E nesta correspondência
Digo com sinceridade
Que, por fim, Vossa Excelência
(Não lhe miro na vaidade!)
De toda essa complacência
Tem a culpa que lhe cabe
Mas não falo em prevalência
Pois há seca em toda a parte

Olhar das Coisas

Olhar o olhar das coisas. Respeitá-las
antes mesmo de ouvi-las, de entendê-las.
Partilhar do olhar das coisas, das pétalas,
das cores, dos cheiros, dos gostos, das estrelas.

Sem extremos, sem espadas, sem espantá-las:
encantar-se com o olhar das coisas, deixar serem elas.
Que sejam ímpares, ínterins, livres das celas,
que vivam as ruas, matas, águas, que icem as velas.

Observar as coisas, o quanto são belas
na sua natureza, na sua criação. Tentar aprendê-las.
Reter um pouco das coisas, das texturas das telas,
dos traços, das maneiras, do oculto. Conhecê-las.

Parar diante do olhar das coisas, do silêncio delas,
de sua história, de suas dores. E escutá-las.
Ainda que nada possam dizer sobre suas mazelas,
decifrar sua fala universal e ajudá-las.

Saber a essência das coisas, que são pó e alma, e tê-las
em alta conta, de imediato, simplesmente pelas sequelas
compartilhadas de existir e da beleza de, ao olhá-las,
ver-se no mesmo mistério, incertezas e vielas.