Versos para se pensar no novo ano

Não temos proteção para o que foi vivido,
 insônias, esperas de trem, de notícias,
 pessoas que se atrasaram sem aviso,
 desgosto pela comida esfriando na mesa posta.” 

Procurando versos que ajudassem a pensar um ano realmente novo, esses, da poeta Adélia Prado, me pareceram os mais adequados ao topo de uma sucinta “lista”. O trecho, extraído do poema Avós, sugere uma aceitação do passado muito cara – ou necessária – à construção do futuro. O acontecido pode magoar, marcar, ferir, mas não pode mudar nem desaparecer. Nada resta a ser feito quanto a ele; muito, porém, temos a fazer quanto ao agora.

Assimilada a inevitabilidade do passado, que possamos, ao olhar para ele, em vez de lamentar o que poderia ter sido e não foi, constatar nossa resistência e nossos aprendizados, como no poema Os Últimos Dias, de Carlos Drummond de Andrade. Na estrofe a seguir, o eu-lírico pede, diante do irremediável e infalível fim, tempo para reconhecer o crescimento em meio às atribulações:

“O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte, e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.”

Sim, somos todos irmãos, e o futuro exigirá de nós cada vez mais diálogo, compaixão. Porém, se não estivermos preparados para ouvir e compreender – e, assim, respeitar profundamente – as diferenças, avizinhadas pelas redes sociais digitais e o mundo globalizado, que ao menos a ideia de irmandade defendida pelo poeta mineiro consiga nos assegurar uma convivência digna, amistosa. No mínimo, pacífica. Os próximos versos, retirados do livro Poema Sujo, de Ferreira Gullar, podem nos ajudar no desafio de exercitar o respeito não só às pessoas, mas também à natureza, pois mostram o deslumbramento de uma criança com a descoberta da grandeza do mundo – e da pequenez humana.

“e ver que a vida era muita
espalhada pelos campos
que aqueles bois e marrecos
existiam ali sem mim
e aquelas árvores todas
águas capins nuvens – como
era pequena a cidade!

E como era grande o mundo:
há horas que o trem corria
sem nunca chegar ao fim
de tanto céu tanta terra
de tantos campos e serras
sem contar o Piauí”

Um ano realmente novo implica, a partir de um olhar menos umbilical, colocar-se no lugar do outro e evitar a sobreposição de interesses individuais aos coletivos. Envolve, antes de mais nada, combater as nossas “pequenas corrupções” e a banalização das desigualdades, da falta de educação, da desatenção. E essa crença tem de aparentemente utópica o que tem de necessária para iniciarmos uma caminhada de superação de situações há muito consolidadas, como o cenário descrito por Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência, de 1953:

Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.”

Os versos descrevem não apenas um passado cruel – ou a dura realidade do presente –, mas, acima de tudo, uma triste perspectiva: embora sempre se fale em ano novo e em transformações, a verdade é que mudamos pouco ao longo do tempo e, na toada atual, continuaremos sem progressos significativos. As desigualdades continuam a nos perturbar infimamente e seguimos pecando mais por inércia do que por iniciativa. Em uma revisão de valores, que consigamos refletir sobre os falhos princípios que têm nos regido, como consumismo, imediatismo e individualismo, deixar de lado os vícios dos pequenos poderes e assumir uma postura de vida mais humilde e franca, como ensina Jorge Luis Borges em seu poema Lhaneza; afinal: 

“Isso é alcançar o mais alto,
o que talvez nos dará o Céu:
nem admirações nem vitórias
mas sermos, simplesmente, admitidos
como parte de uma Realidade inegável,
como as pedras e as árvores.”
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Nenhum olhar, várias perspectivas

“Era o som de movimentos impensados, impulsivos, de raiva. Para quem não conhecesse, poderia parecer o som de riscar. Mas não, era o som de escrever.” A escrita do português José Luís Peixoto opõe-se completamente ao silêncio e à escuridão de seu Nenhum Olhar (Ed. Agir), romance vencedor do Prêmio Saramago de 2001: é gritante, brilhante. Autor inspirado, ele mistura os homens agrestes do seu Alentejo a gigantes, demônios e vozes aprisionadas em arcas e cria uma literatura refinada.

Notadamente influenciado por seu célebre conterrâneo, José Saramago, Peixoto vale-se apenas de pontos e vírgulas em seu texto; desse modo, acentua a intensidade da narrativa. A não demarcação das falas e a quase ausência de diálogos ajudam a construir os personagens rudes, habitantes de um universo pobre e mítico, que descortinam sentimentos enquanto cruzam colinas à noite, em conturbados monólogos interiores.

Nesses momentos de solidão, as densas reflexões de vários personagens apresentam a história sob diversas e privilegiadas perspectivas. As carcaças miseráveis do romance, então, passam a ter sensibilidade e cogitações, ou seja, tornam-se gradativamente humanas. E cada vez mais humano também parece ser o espaço misterioso onde ocorre a história: sua escuridão, seu silêncio, sua serração, seu calor, enfim, todos os fenômenos são como ações que influenciam diretamente as atitudes de seus habitantes (ou respondem a elas).

Algumas passagens do livro, vale registrar, têm real valor e encanto literários. O momento em que o humilhado José discorre, solitário, sobre o que sente pelo filho, por exemplo, comove pela profundidade dos sentimentos, pois surpreende descobrir tamanha pureza por trás da pele tão triste e ressecada. Outra passagem de rara beleza é quando o mesmo José, ao voltar para casa, encontra o temido gigante abusando de sua esposa e, sem poder fazer nada, apenas olha nos olhos dela e percebe o quanto a amava, que a amou por toda a vida e, acima de tudo, que tamanho amor era recíproco.

“Quis ensinar-te que, se não vires as estrelas da noite, espera chuva no dia seguinte. E saberes isto é saberes tudo.” Ao explorar em Nenhum Olhar a simplicidade e/ou a rudeza dos homens e da terra, José Luís Peixoto torna, em contrapartida, rica e sofisticada sua literatura. Seu texto criativo e intenso coloca o leitor em contato com algo de extrema importância tanto para a arte quanto para a vida, mas que pouco tem sido valorizado no mundo atual: o lugar-qualquer, o joão-ninguém, o nenhum-olhar, “o caminho onde tudo é muito pouco, e cada uma dessas coisas pequenas é demasiada”.

Cem Anos de Solidão, um livro imprescindível

Amarrado ao castanheiro, José Arcádio Buendía sonhava que abria a porta de um quarto e entrava em outro idêntico, numa interminável sessão de cômodos iguais, até que, finalmente, Prudencio Aguilar, o homem a quem havia assassinado anos antes, lhe tocava o ombro e o despertava. Isso se repetiu durante muito tempo; certa vez, contudo, Prudencio não mais o soltou. Morria, enfim, o fundador de Macondo. Este é apenas um exemplo da sutileza e da originalidade que permeiam os parágrafos de Cem Anos de Solidão, um dos grandes clássicos da literatura mundial.

Publicada em 1967, esta obra de Gabriel García Márquez (um dos seis escritores latino-americanos a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982) é a melhor demonstração de um talento que se sobressaiu em um mundo pós-revoluções literárias. O livro prima pelo domínio que o autor revela ter sobre a história que se dispôs a contar, pelo refinamento com que funde o absurdo ao natural e, acima de tudo, pela delicadeza com que capta e explora a solidão humana, em sua complexa mistura de angústias e alegrias.

Na época em que “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”, a solidão estava lá. Muitos anos depois, quando o aeroplano quase chegou, também. Neste vasto período, são inúmeros os personagens, repetitivos os nomes, infinitas as mortes, frequentes as reviravoltas do destino e complicadas as multiplicações familiares. Se muitos leitores julgam necessário construir a árvore genealógica da estirpe dos Buendía para compreender a história, García Márquez parece brincar com a trama de sua complexa prole.

Brincadeira séria. Mais do que um contador de boas histórias, o escritor é um arquiteto de palavras. A coesão entre o que se conta e como se escreve é tão sutilmente construída que, por exemplo, Santa Sofía de la Piedad, personagem cuja virtude era a de “não existir por completo, a não ser no momento oportuno”, é raramente lembrada pelos leitores do livro. Já as diversas idas e vindas do enredo são responsáveis pela impressão de que o tempo realmente dá voltas, fato denunciado incontáveis vezes por Úrsula, centenária matriarca da família, ao longo dos anos.

Não apenas dá voltas como todo dia pode ser segunda-feira, já que o tempo também “sofria tropeços e acidentes e podia, portanto, se estilhaçar e deixar num quarto uma fração eternizada”. Ao evocar a tranquilidade de sua avó, que lhe contava as histórias mais absurdas sem sequer franzir as sobrancelhas, García Márquez conseguiu fundir com rara maestria as paralelas linhas do sonho e da realidade. O decreto da inexistência dos trabalhadores para calar reivindicações operárias e a difusão da notícia de que nunca houve um líder rebelde como o Coronel Aureliano Buendía, muito menos um massacre em Macondo, são passagens que firmam seu valor por mascarar – sem, entretanto, amenizar – críticas aos regimes ditatoriais da América Latina; outras, como a da chuva de pétalas amarelas após a morte do “rei” e da subida de Remédios, a bela, aos céus, legitimam-se pela beleza profunda, comovente, preciosa.

A saga da estirpe centenária comove justamente pela beleza e pela tristeza de sua solidão. Solidão da loucura do empreendedor José Arcádio Buendía, “cuja imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia (…)”; do desencanto de Úrsula em sua vã luta contra a velhice; da glória do Coronel Aureliano Buendía diante do vazio de seus tempos de guerra; do amor do jovem José Arcádio, sozinho na cama com Pilar Ternera; enfim, da própria solidão, cujo peso pode até mesmo desenterrar os mortos. Nada passa despercebido à onisciência do narrador. Cada detalhe explorado se manifesta e/ou se repete ao longo da história.

Como os fios e as cores de um tapete persa – daqueles em que os ciganos se exibiam em mirabolantes voos nas feiras de Macondo –, tudo se entrelaça com perfeita harmonia em Cem Anos de Solidão. A morte a rondar pelos quartos enquanto a vida míngua pelas páginas faz da leitura dessa obra-prima uma viagem que, se não pode ser lembrada com total clareza devido à confusão de gerações, inunda o imaginário de passagens literárias inesquecíveis e dos mais variados sentimentos. Embora não seja dada outra chance sobre a terra à estirpe de solitários, a triste saga dos Buendía não se permite esquecer nas mentes que mergulham na escorregadia realidade do Macondo de García Márquez, uma terra onde beleza e palavras se fundiram em estilo único e inspirador, capaz de traduzir não apenas a solidão humana, mas também de fazer pensar e conhecer a própria natureza solitária e relativa do mundo.

Tempo de agradecer

Quando completou 50 anos de carreira, Maria Bethânia selecionou um tema específico para celebrar a marca: a gratidão. A escolha da cantora revela alguém em paz com sua história e, a despeito dos inevitáveis percalços, satisfeita com sua caminhada, convicta de seus caminhos. Em tempos de fim de ano, porém, não seria ousadia afirmar que poucas pessoas, ao realizar um balanço dos últimos 12 meses, teriam uma sensação de conforto quanto aos próprios passos como a artista baiana demonstra ter com as últimas cinco décadas. O “obrigado” da intérprete – mote do show comemorativo Abraçar e Agradecer, ora perpetuado em DVD – vem, tendo a crer, de pensamentos e atitudes característicos de seu temperamento e de sua postura: o respeito aos seus ideais, o entendimento de dom como missão e a consequente alegria de fazer o que faz.

Para festejar uma longeva carreira que começou com a artista, ainda menina, aos 17 anos, deixando Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, para substituir Nara Leão, no Rio de Janeiro, na primeira peça teatral de protesto contra o Regime Militar do Brasil – o espetáculo Opinião –, Bethânia não preparou um show de sucessos, retrospectivo – para deleite dos fãs –, nem selecionou um repertório completamente inédito, musicalmente arrojado, de modo a apontar novos horizontes. Escolheu “apenas” interpretar canções e textos que, de alguma maneira, lhe possibilitassem expressar suas ideias e, principalmente, agradecer à música e comemorar a vida. Seguiu estritamente sua apurada e – por que não dizer? – inviolável intuição artística.

Aliás, seguir suas certezas, por menos lógicas ou claras que possam parecer, foi uma constante ao longo de toda a trajetória da cantora. Nos anos 60, por exemplo, em plena efervescência de movimentos artísticos como a Tropicália e a Jovem Guarda, ela não hasteou nenhuma bandeira e rechaçou todos os rótulos em alta na época; mais tarde, no auge do reconhecimento mercadológico, após se tornar a primeira mulher a vender mais de 1 milhão de cópias no Brasil, Bethânia rompeu uma série de discos de sucesso com Ciclo, um álbum totalmente acústico em meio aos sons eletrônicos emergentes na década de 1980; já nos anos 2000, diante de um cenário social cada vez mais urbanizado, barulhento, acelerado e envaidecido pelas novas tecnologias, a artista voltou seu olhar para o interior e passou a produzir CDs minimalistas, quase silenciosos.

Essa convicção e essa fidelidade permeiam todo o repertório de Abraçar e Agradecer, tal qual a entrega de Bethânia ao seu dom. Não por acaso, ela abre o espetáculo com a bela Eterno em Mim, de Caetano Veloso, uma declaração de amor não só à pessoa amada, mas também à música. Somente a voz devotada da artista consegue harmonizar um roteiro tão eclético, que vai da roqueira Gita, de Raul Seixas e Paulo Coelho, à sertaneja Eu, a Viola e Deus, de Rolando Boldrin; da sofisticada Dindi, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, à popular Folia de Reis, de Roque Ferreira; da entusiasmada Alegria, de Arnaldo Antunes, à melancólica Silêncio, de Flávia Wenceslau. E para cumprir sua missão, Bethânia cerca-se sempre de músicos virtuoses, junta-se a grandes diretores, cenógrafos e iluminadores, ensaia mais de 40 dias antes de estrear um show e não tolera falhas técnicas ou imperfeições sonoras. Seu canto deve chegar ao público puro como a natureza o criou e cuidou de lapidar.

Se não compreendesse seu talento como a missão de sua vida, dificilmente a entrega da artista ao seu ofício seria tamanha e lhe daria o prazer que transparece dar, a ponto de Bethânia querer louvar tudo. O dom da vida, a espiritualidade, a natureza, o dia a dia, as amizades, a imaginação, a música, o palco, a voz, o público… Até mesmo seus defeitos: “Agradecer aos amigos que fiz e que mantêm a coragem de gostar de mim, apesar de mim”, como frisa no texto de abertura do espetáculo, o mesmo em que, à certa altura, ela se mostra ciente de um descontentamento generalizado nos tempos atuais e ressalta (ou ensina): “Agradecer ter o que agradecer.”

Maria Bethânia está feliz com seus 70 anos de vida e cinco décadas de carreira, enquanto muitos de nós não conseguimos nos equilibrar com as vitórias e as derrotas de 12 meses recentes. Mais do que bens concretos ou sorte, talvez nos falte mesmo uma fé verdadeira em nossos propósitos e sonhos e, consequentemente, satisfação em cumprir com nossos afazeres – sejam eles pessoais, sejam profissionais. Ou nos falte “simplesmente” – na verdade, aqui se encontra o maior desafio – lançar mão de um olhar mais generoso, resiliente, menos maniqueísta, e de uma sensibilidade mais apurada, que permitam a cada um assimilar melhor os motivos diários para abraçar e agradecer.

O que se foi e o que será

Baby Jane, Blanche Hudson e a infelicidade vivem juntas – e sozinhas – em uma mansão em Los Angeles. A primeira teve seus dias de sucesso na infância, quando era a principal estrela mirim dos Estados Unidos; pouco a pouco, porém, perdeu lugar para a segunda, sua irmã, que viria a se tornar uma das maiores atrizes de Hollywood, até passar por um incidente que a deixou aleijada e interrompeu sua carreira. A terceira, por sua vez, acompanhou-as por toda a vida, fruto de algo que ruiu a relação fraterna ao longo dos anos: a mágoa. Dirigida por Charles Möeller e Claudio Botelho, a peça O que terá acontecido a Baby Jane?, de Henry Farrel, revela as faces mais cruéis e todo o potencial destrutivo do ressentimento, mas também um detalhe surpreendente: sua insignificância diante do amor.

Em cartaz no Teatro Porto Seguro e com Eva Wilma e Nicette Bruno nos papéis que, respectivamente, Bette Davis e Joan Crawford tornaram clássicos no filme de 1962, dirigido por Robert Aldrich, a peça apresenta mais detalhes da infância e juventude das irmãs Hudson, desde sempre marcadas pelo rancor – descarado – de Jane e – velado – de Blanche. A inversão de papéis no show business levou das irmãs mais do que a possibilidade de uma relação amistosa, saudável: à Jane, esquecida pelo público, custou sua infância, seus amigos, sua autoestima, sua segurança; já à Blanche, reconhecida e bela, custou a paz de espírito, os amores verdadeiros e até sua mobilidade.

Na cadeira de rodas, ela depende dos “cuidados” da irmã, alcoólatra e desequilibrada, que a submete às maiores atrocidades, desde mantê-la presa em um quarto para não fazer contato com ninguém a lhe servir um rato na bandeja do jantar. Por outro lado, embora se esforce constantemente para responder às agressões de Jane sempre com bondade e carinho, Blanche nunca consegue convencê-la de suas intenções generosas. Uma relação carcomida pela falta de diálogo, honestidade e transparência. Duas vidas apagadas pela sombra da mágoa, da inveja, da insegurança; desperdiçadas por sentimentos tão corriqueiros quanto poderosos, tão agressivos ao próximo quanto a quem – por menos que queira – os semeia.

Para o público, uma sensação de injustiça acompanha toda a peça, pois Jane parece agredir alguém que só lhe quer bem. No ápice das torturas físicas e psicológicas, no entanto, Blanche, em vez de condenar os crimes da irmã, decide revelar a ela um grande segredo, o fato responsável por fazer ambas infelizes, mas, principalmente, por transformar Jane na pessoa triste, feia e ferida que se tornou. E é este o ponto mais interessante da peça. Após a revelação, Jane não surta (ainda mais) nem pensa em se vingar. Pelo contrário. Simplesmente reflete: “Quer dizer que, esse tempo todo, nós poderíamos ter sido amigas?”

Ao ouvir o questionamento, Blanche imagina que Jane não entendeu a gravidade do problema e reforça a história. Ela, contudo, compreendera perfeitamente, fato por fato, e a única ideia que lhe ocorre agora é sair para tomar um sorvete com a irmã. Aproveitar o pouco tempo que lhes resta e que lhes foi roubado pela mágoa, seja originada da inveja, dos desencontros, seja das desconfianças, das infidelidades.

Sim. O ressentimento cega. Trai. Torna-se um ponto de referência, mas, ao mesmo tempo, um labirinto. Uma ferida aberta. Quantas vezes não permitimos que pequenos desentendimentos se tornem motivos de rancores eternos? E até os grandes problemas: quantas vezes não tornamos suas proporções ainda maiores e atribulamos nossas mentes e nosso dia a dia com questões que não careciam de nos levar tantas noites de sono? Por que tendemos a nos apegar tanto às mágoas? Quanto elas nos protegem de novos sofrimentos e quanto simplesmente nos sabotam? O que realmente nos ensinam e o que nos levam a deixar de aprender? Como devemos lidar com o preço das experiências negativas? Esquecendo tudo? Lembrando sempre? Quanto é ingênuo perdoar e quanto é necessário?

Questões como essas afloram diante da banalidade com que Baby Jane, no instante da grande revelação da peça, trata os ressentimentos de longos e tristes anos de convivência com a irmã. Colocam-se em xeque as pequenezas e mesquinharias humanas. A reação nada exagerada da infeliz personagem não remete especificamente a necessidade de se escolher entre perdoar e esquecer, mas, simplesmente, de evitar que a mágoa e o sofrimento assumam dimensões que, na maioria das vezes, não merecem ter. O que aconteceu às irmãs Hudson tem sua aura de Hollywood, mas pode se repetir – e se repete – na mediocridade da nossa vida cotidiana. Cabe a cada um de nós escolher entre o que se foi e o que será. Mas é possível? A tempo?

Paulinho da Viola, do estilo comedido à nobreza do samba

Nenhum grito, nenhum ruído sobrando, nenhum excesso. Em seu show apresentado em junho no Theatro NET SP – e que volta a cartaz em outubro –, o único exagero de Paulinho da Viola foi a elegância de seu samba. Com um repertório de sucessos e canções menos conhecidas, o músico prova mais uma vez a força do estilo comedido que o caracteriza, avesso a modismos, mas nada conservador; consagrado, mas sempre novo. Enquanto muitos colegas de geração buscam sintonizar seus sons com tendências estéticas contemporâneas – como Caetano Veloso e Gal Costa, muito bem-sucedidos em suas incursões roqueiras e eletrônicas –, o sambista segue em ritmo próprio.

Ritmo que pulsa delicado, saudoso, sensível, na contramão das rádios e de um cotidiano desesperado. Quando as cortinas se abriram e o sambista apareceu só no palco, acompanhado apenas de seu violão, conduziu o público fiel a uma viagem de bom gosto e poesia, a uma pausa no modo automático para dar vez a calmos momentos de contemplação da música. De admiração do samba. Nas curvas da voz aveludada de Paulinho da Viola, as paisagens sinuosas de canções como Dama de Espadas e Nervos de Aço tornam-se ainda mais belas e poéticas.

Outras composições, como as sentidas Num Samba Curto e Dança da Solidão, ganham doçura e leveza na interpretação do poeta, mas também, ao mesmo tempo, profundidade, enquanto sambas batucados como Quando Bate uma Saudade e Onde a Dor não tem Razão têm o lirismo de suas letras aquecido, entre agitados compassos, pela divisão suave de Paulinho, seu fraseado paciente e seu cantar melodioso. Ao apostar nas sutilezas das músicas e das poesias, o artista desvenda mistérios, redescobre significados e aponta caminhos imprevisíveis para versos e harmonias das mais alegres às mais tristes canções.

Atento observador dos corações humanos, Paulinho da Viola imprime ao canto o mesmo olhar detalhista e apaixonado com que compõe. E por sua leitura particular dos sons e a musicalidade de suas palavras, mantém uma obra constantemente revigorada, expressiva e – acima de tudo – extravagante. Claro, no melhor sentido: extravagante em sentimento, em sofisticação, em nobreza.

Espetáculo de gratidão

Gente jovem, bonita, de riso largo. Gente talentosa, afinada, de verdade. Gente cantora, instrumentista, intérprete. Artistas. Sensíveis para entender. Precisos para comunicar. E ousados, no desafio de recriar e celebrar um dos mais ricos imaginários da música brasileira. Milton Nascimento, Nada Será Como Antes – O Musical é, acima de tudo, um espetáculo de gratidão.

Gratidão à novidade, à juventude, à fé, à esperança, à coragem, à força, à alegria, à inspiração, à natureza – elementos-chave do universo criativo do compositor. Gratidão ao amor e à amizade, pilares da obra e da vida do Bituca. E, principalmente, gratidão à música, expressão que alimenta, envolve, emociona. Cura. Quando Charles Möeller e Claudio Botelho optaram por contar a história dos 50 anos de carreira e 70 de idade de Milton Nascimento estritamente por meio de suas canções, escolheram o caminho mais difícil, sem fórmulas e cronologias; porém, o mais fiel.

No palco, o elenco enfrenta as difíceis composições com maestria vocal, instrumental e cênica. Todos tocam e cantam. Estrela Blanco dá o tom da qualidade do espetáculo na bela Canção Amiga, poema de Drummond musicado por Milton; Cássia Raquel prima pela força e segurança em Caicó; e Lui Coimbra revisita com delicadeza San Vicente. Já Pedro Sol esquenta a apresentação com a roqueira Para Lennon e McCartney, enquanto Marya Bravo emociona em arranjo minimalista de Maria, Maria. Jules Vandystadt surpreende com Unencounter, versão em inglês para a clássica Canção da América, e Sérgio Dalcin destaca-se pelo carisma e pela terna interpretação de Coração de Estudante.

À altura do elenco estão cenário, iluminação e figurinos. Os números se passam em uma aconchegante sala de estar mineira, trespontana, com portas abertas a quem chegar e com paredes repletas de referências sacras para completar o clima interiorano. A música que acontece em casa e, imediatamente, contagia a todos remete à liberdade criativa das composições dos integrantes do Clube da Esquina, divididas no espetáculo em quatro partes – Primavera, Verão, Outono e Inverno – e reforçadas por fina iluminação, responsável por momentos memoráveis, como Milagre dos Peixes.

O conjunto da obra expõe no palco toda a intensidade autoral do homenageado. Para ele, aliás, que assistiu ao musical inúmeras vezes, o espetáculo deve significar, no mínimo, um balanço geral muito positivo da carreira, uma feliz rememoração. Para o público, reforça o sentimento de que os sonhos – e as músicas – não envelhecem. Além da apoteótica certeza de que, depois de Milton Nascimento, definitivamente, nada será como antes.